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Boas vindas ao XIII Congresso da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas

Criada em 21 de abril de 1998, em Salvador, Bahia, com ampla participação de lideranças representativas da área de artes cênicas (teatro e dança) de todo o Brasil, a ABRACE teve no I Congresso (São Paulo) o primeiro ponto forte de sua história. A realização deste Congresso na ECA/USP, em setembro de 1999, revelou o crescimento da área de Artes Cênicas no ambiente universitário brasileiro, desde a implantação dos primeiros cursos livres nos anos 1940 e 50, dos cursos de graduação nos anos 1960 e do lento processo de criação dos cursos de pós-graduação a partir dos anos 1970. As Reuniões Científicas e os Congressos já realizados, desde 1998, atraíram a atenção de uma plateia concorrida e comprometida com o desenvolvimento da pesquisa em Artes Cênicas no Brasil, acolhendo um número significativo de professores, artistas, estudantes e membros dos programas brasileiros e estrangeiros de pesquisa e pós-graduação na área, computando atualmente cerca de 40 universidades e núcleos de pesquisa em artes cênicas representados. 

Neste ano, a Abrace realiza seu XIII Congresso de 23 a 29 de outubro na Universidade Federal de Ouro Preto, em Minas Gerais, tendo como eixo temático de sua discussão e programação: O que podem as artes cênicas entre a máquina do mundo e as lutas pela terra? Partindo da questão geral, a programação do evento tem por objetivo apresentar o problema do poder das artes cênicas hoje a partir de distintos enfoques e, sobretudo, no contexto tensionado pela globalização da máquina do mundo diante das múltiplas lutas pela terra. Assim, o congresso contará ao longo de sua realização com uma mesa de abertura voltada para pensar a relação entre políticas públicas, artes cênicas e universidade, além das demais conferências e das mesas de debate com pessoas convidadas. Por outro lado, através de seus grupos de trabalho, grupos de pesquisa, fóruns e mesas temáticas, buscará divulgar as pesquisas e os estudos em andamento na área, promovendo o encontro de pesquisadores e pesquisadoras, discentes e docentes, programas de pós-graduação. 

A questão central do evento emerge do poema “A máquina do mundo”, de Carlos Drummond de Andrade, publicado originalmente em Claro enigma (1951), visando refletir sobre o poder das artes cênicas hoje frente ao avanço da máquina mundial de exploração do planeta. Nele, o poeta caminhando numa estrada pedregosa de Minas se depara com “a máquina do mundo” que lhe oferece não apenas o domínio sobre todas as coisas, também o saber de tudo que define o ser terrestre, vislumbrados, é claro, segundo o despertar do “sono rancoroso dos minérios que dá volta ao mundo e torna a se engolfar na estranha ordem geométrica de tudo”. Diante de semelhante graça, o poeta em sua recusa termina de mãos pensas diante da escalada técnico-mundializante, capitaneada pela mineração, após a Segunda Guerra Mundial. 

Mas, “a máquina do mundo” além da cifra histórica, comporta a antiga chave metafísica que nos faz lembrar da sua presença no Canto X de Os Lusíadas de Camões. Assim, podemos estender o arco temporal da palmilhada estrada pedregosa de Minas à colonização de todo o planeta. Para fazer frente ao seu avanço técnico-mundializante temos as múltiplas lutas pela terra que compreendem um leque amplo de sentidos, agentes e contextos relacionados aos processos de libertação e de descolonização de nações e povos, as diversas formas de resistência empregadas por quilombolas, indígenas, ribeirinhos, militantes sem-terra.

Assim, o XIII Congresso, do ponto de vista acadêmico, busca mapear a amplitude e a complexidade da questão a partir das diversas frentes de trabalho do evento.  Por outro lado, do ponto de vista institucional, visa um espaço para o intercâmbio intelectual e artístico, voltado a discussão e a divulgação de conhecimento sobre o tema entre  pessoas associadas, participantes e convidadas no âmbito das artes cênicas.

Esperamos vocês para o XIII Congresso da Abrace de 23 a 29 de outubro na UFOP em Ouro Preto!

A Máquina do Mundo (Carlos Drummond de Andrade. Publicado originalmente em Claro Enigma, 1946)

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo o que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;

é a memória dos deuses, e o solene
sentimento da morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

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