Filosofia prática e diálogos interculturais
Yoga na Unicamp - CLE/FEF - UNICAMP, UFRB & ALAFI
Venha praticar/filosofar de 13 a 17 de outubro de 2025 na FEF/UNICAMP
Inscrições de 25 de setembro a 12 de outubro de 2025

Histórico:
O grupo de estudos Yoga na Unicamp trabalhou junto desde 2018 para desenvolver o curso de extensão “Filosofia do Yoga e Interculturalidade”, curso aprovado pela Faculdade de Educação Física (FEF) em 2024, em que fizemos uma escolha decisiva: os professores do curso deveriam ser praticantes de yoga. Isso mudou o espectro do corpo docente que elencamos, já que a figura dos estudiosos ficou amalgamada com a dos praticantes. É uma escolha que preserva alguns aspectos da filosofia do yoga no ambiente acadêmico. Esse diálogo que acolhe uma qualidade de sadhaka para o professor de filosofia de yoga de fora para dentro, a qualidade de praticante, feito em comum acordo entre a universidade e a comunidade dos yogues de Campinas, tem seus efeitos na academia quando consideramos o que é conhecimento, ou episteme.
Em contato com a Associação Latino Americana de Filosofia Intercultural - ALAFI aprendemos que há um debate amplo que envolve o que estamos chamando de Filosofia Prática, que podemos encontrar na Grécia antiga, na China, na América, na Índia, entre povos originários, etc. Uma das referências é o francês Pierre Hadot, que defende que a Filosofia pode ser entendida como um modo de vida, uma maneira de viver, e não é composta somente de reflexão teórica. Em contato com o trabalho dele, entendemos que as filosofias antigas e clássicas eram todas modos de vida, mas que, da longa passagem do período medieval para a contemporaneidade, muitos contextos filosóficos foram paulatinamente separando o domínio prático do teórico, privilegiando este último. Contudo, em sua estrutura, a filosofia nunca deixou de ser prática, pois mesmo a mais teórica das reflexões visa uma transformação prática por parte de quem filosofa. Assim, é relevante reconsiderar a importância do aspecto prático da filosofia, práticas que expressam reflexões filosóficas. É diferente de apenas reconhecer que há algo na prática de uma outra cultura que pode ser conhecimento. Trata-se muito mais de agregar a prática junto ao estudo intelectual para que possamos estabelecer diálogos em várias frentes, seja na academia seja na tradição dessas práticas e, assim, nos beneficiar mutuamente, pois estaremos alargando o espectro de reflexões e interações produtivas locais.
A partir dessas duas experiências, buscamos estabelecer o diálogo com quem pratica filosofia, com quem filosofa de modo prático e com quem entendeu que existem Filosofias Práticas.
Porque um simpósio sobre Filosofia Prática?
A partir da discussão sobre a noção de filosofia como modo de vida, sentimos a necessidade de promover a discussão e a troca de conhecimentos sobre Filosofia Prática entre pesquisadores, estudantes e profissionais. Muitas das “cosmopercepções” de distintas culturas mundiais são calcadas em ontologias (ou pelo menos em coisas que chamaríamos de ontologia desde uma concepção clássica, por assim dizer) que tem como arché, fundamento, ser, etc. noções que mobilizam não apenas o entendimento e/ou razão, mas também os demais sentidos, a experiência como um todo. Ademais, em cada gesto nosso, em cada modo de andar, olhar, rezar, amar, expressamos e/ou expressa-se um modo de compreender o mundo que conta algo sobre estas compreensões que constituem nosso ser. Por isso, um evento de filosofia que admita as práticas de tradições diversas pode nos indicar caminhos para uma pesquisa e reflexões filosóficas que admitam outras linguagens para além da escrita/falada. Trata-se, por exemplo, da compreensão da oralidade como oralitura no sentido evocado por Leda Maria Martins, de práticas corporais afrocentradas que partem de vivências culturais das quais emergem reflexões filosóficas como nos ensina Renato Noguera, ou, ainda, de práticas que encarnam debates filosóficos, como na proposta de meditação sentada encontrada no Tratado sobre o Sentar e Esquecer (Zuo Wang Lun).
Nesse sentido, nos perguntamos: o que acontece com nossas teorias filosóficas quando se coloca em jogo estas outras inscrições mobilizadas outras dinâmicas do sensível e do corpo? Como a prática de uma teoria filosófica pode nos impactar corporalmente? De que forma a própria concepção de filosofia é alterada quando pensamos em práticas filosóficas? Este evento irá apresentar a um público amplo diferentes formas de reflexividade e intelectualidade constituídas através de relações interculturais entre diferentes ancestralidades e tradições. O evento será constituído por diferentes bases materiais, passando pelo corpo, artefatos e técnicas, bases que vão além da escrita, da cunha, e sua conformidade, assim não tomaremos a escrita como o meio único ou derradeiro, mas constitutivo de uma ecologia de meios intelectuais corporificados. Esse simpósio é uma provocação para experimentarmos juntos estas possibilidades.
